“Um animal que provou carne humana não é seguro”, diz o pai da protagonista em certa cena de Raw, quando discutem sacrificar o cão que teria se alimentado de carne humana. Após experimentar tal petisco, o animal poderia ganhar gosto pela coisa e se tornaria um risco. Trazida para a esfera humana, a frase ajuda a entender muitos de nossos vícios: experimentamos uma primeira dose e logo passamos a querer mais e mais.
Seria, então, este longa francês uma metáfora sobre nossos vícios? Talvez. Observamos limites sendo ultrapassados para saciar necessidades e sintomas que remetem a crises de abstinência. Ao escolher o canibalismo como objeto do desejo, no entanto, Raw parece querer dizer algo mais.
Adolescência, sexualidade, identidade. Diferentes elementos contribuem para as mudanças pelas quais Justine (Garance Marillier) passará. Mas, na verdade, seu lado selvagem sempre esteve lá, dormente em seu DNA, reprimindo, controlado, vigiado, aguardando para se manifestar. Ele é parte da personagem e, em certos momentos, é até necessário, como uma espécie de instinto de sobrevivência. Cabe a pergunta: o quanto de animalesco, afinal, não existe em todo ser humano?
Escrito e dirigido por Julia Ducournau, Raw conta a história de Justine, uma jovem vegetariana que, após um trote em sua faculdade de Veterinária, desenvolve um apetite voraz e crescente por carne. Intenso, especialmente para quem tem estômago fraco, o longa é estranhamente indigesto e sedutor.
Raw (Grave)
Direção: Julia Ducournau.
Elenco: Garance Marillier, Ella Rumpf, Rabah Nait Oufella.

