‘A Forma da Água’ | Como um peixe fora d’água

“Quando ele olha pra mim, não sabe que eu sou incompleta”, diz Elisa (Sally Hawkins), protagonista de A Forma da Água, após encontrar seu homem-anfíbio. “Ele me vê como eu sou”. Essa espécie de desabafo expressa o que sente a personagem, acostumada a um mundo em que ela que é vista como, digamos, diferente.

Órfã e muda, Elisa trabalha na equipe de limpeza de uma instalação do governo, no turno noturno. Com poucos amigos, vive uma rotina sem muita graça, em uma sociedade americana da década de 1960 repleta de sinais de racismo, homofobia e machismo – não muito diferente da nossa dos dias de hoje, aliás.

Até que chega à instalação o tal ser meio homem, meio peixe. Levado para lá em clima de segredo, sua presença é cercada de mistério. Seria ele inteligente? Teria consciência? Perguntas que poucos ali parecem preocupados em fazer. Aquele anteriormente considerado um deus pelos nativos da floresta amazônica será mostrado sofrendo e fragilizado, não deixando dúvidas sobre quem é o verdadeiro monstro ali – ideia também presente na narração que abre o longa.

Elisa será a primeira a buscar se relacionar de fato com aquela criatura, a sentir-se bem em sua companhia e perceber que os dois podem ter muito em comum. “Será que ele é tão diferente de mim?”, questiona. Para ser se comunicar com o novo (e incomum) parceiro, a “princesa sem voz” recorre a sinais, músicas, toques, olhares. É como se a ausência da fala, anteriormente uma barreira, agora lhe permitisse uma conexão, uma intimidade sem olhares de discriminação.

Filme de Guillermo Del Torro (O Labirinto do Fauno, Hellboy), A Forma da Água é um romance com toques de contos de fadas e homenagens ao próprio cinema. Com belas imagens, mostra – ainda que com alguma previsibilidade – um inusitado relacionamento que se desenvolve em meio à Guerra Fria.

A Forma da Água (The Shape Of Water)

Direção: Guillermo Del Toro.

Elenco: Sally Hawkins, Michael Shannon, Richard Jenkins, Doug Jones, Michael Stuhlbarg, Octavia Spencer.