Hereditário começa com uma nota de falecimento, mostrando que o clima de sua trama será tenso. No tal velório para o qual fomos convidados, Anne (Toni Collette), diante de um bando de rostos que ela nunca viu, fala sobre sua recém-falecida mãe. “Minha mãe era uma mulher reservada e cheia de segredos”, comenta. “Ela tinha seus próprios rituais, seus próprios amigos.” Mas que diabos estaria escondendo essa senhora?
Mais tarde, em uma sessão de terapia em grupo, conhecemos um pouco mais sobre a família e descobrimos um histórico envolvendo casos de esquizofrenia, depressão e demência. Teria Anne herdado então algum distúrbio? E seus filhos? Há razões para desconfiar. Um certo episódio de sonambulismo, por exemplo, quase acabou em tragédia e criou um trauma na família. E não para por aí: outra fatalidade (uma bem bizarra) ainda atingirá essa família, fazendo muita gente perder a cabeça.
Diante desse cenário, que mistura sentimentos de luto e culpa, é difícil dizer de imediato se o horror que testemunhamos é real ou fruto da imaginação dos personagens. Espíritos ou alucinações? Possessão ou transtorno de identidade? Maldição ou hereditariedade? A narrativa irá trabalhar esses opostos, e é justamente aí que está sua graça.
Filme que marca a estreia do diretor e roteirista Ari Aster, Hereditário retrata o drama da família Grahan e os eventos que sucedem à morte de sua matriarca, Ellen. Como figuras em uma maquete, os indivíduos aqui parecem estar sendo manipulados e terem pouco controle sobre seus destinos. Estranhos eventos vão acontecendo e as dúvidas, incomodando. Em certo momento, porém, o longa abre mão das contradições e resolve esclarecer didaticamente muita coisa (com direito a registros fotográficos, para não deixar dúvidas). Esse caminho mais explicativo pode deixar as coisas um pouco menos interessantes, mas, ainda assim, oferece bons sustos.
Hereditário (Hereditary)
Direção: Ari Aster.
Elenco: Toni Collette, Gabriel Byrne, Alex Wolff, Ann Dowd, Milly Shapiro.
Ano de lançamento: 2018.

