‘Sombras da Vida’ | O pra sempre sempre acaba

Um fantasma clássico – daqueles cobertos por um lençol branco e dois furinhos nos olhos – nos conduz por uma jornada ao longo do tempo e da existência em Sombras da Vida. Mais melancólico do que assustador, o tal fantasma (Casey Affleck) é um jovem músico que, após sua morte, volta para a casa onde vivia com a esposa (Rooney Mara). Lá, tudo que ele faz é observá-la. Observa seu luto, seu silêncio, sua rotina. Os dias vão passando, e ele continua ali, na casa, por muito, muito tempo.

O tempo, aliás, parece ser o verdadeiro protagonista dessa história. Somos levados a refletir sobre a maneira como nos relacionamos com ele e a insignificância de nossas ações diante do fato de que, um dia, tudo acabará. Pode levar alguns bilhões de anos, mas acabará, como aponta certo personagem em uma cena repleta de álcool e niilismo. Durante a conversa, o sujeito divaga também sobre a preocupação do ser humano com a forma como será lembrado. “Construímos o nosso legado peça por peça”, diz ele. “E talvez o mundo inteiro se lembre de você, ou talvez apenas algumas pessoas, mas você faz o que pode para ter certeza de que ainda estará por perto depois de partir”.

Dirigido por David Lowery (Meu Amigo, O DragãoAmor Fora da Lei), Sombras da Vida vai, devagarzinho, nos deixando conhecer a intimidade de seu casal central. Como o espirito voyeur do músico, espiamos longas cenas do cotidiano, combinadas com rápidas passagens de tempo. Espiamos tudo por uma tela meio quadrada, ouvindo uma trilha marcante. E o fantasminha camarada consegue contar sua história sem dizer uma única palavra, enquanto contempla a vida passar.

Sombras da Vida (A Ghost Story)

Direção: David Lowery.
Elenco: Rooney Mara, Casey Affleck.
Ano: 2017.